quarta-feira, dezembro 17, 2008

E dizia, finalizando uma conversa num fim de tarde: "É a vida vai vivendo por si só".

terça-feira, dezembro 02, 2008

Ela sabia o que ele gostava. Da fugacidade das coisas. Do cheiro inebriante que ficava no ar. Para ela, longe do mecanicismo que traz o pão: estavam as tardes de domingo. Todas vividas intensamente na doçura de um edredom. Bem distante da vida monótona das baias, da máquina de café. Ela queria mesmo era ouvir Los Hermanos, tomar café coado e viver das pequenas coisas. Da arte, da música, do cinema. Dos imãs de geladeira escolhidos como se fossem sua própria metonímia. Queria mais figuras de linguagem para eufemizar a feiúra dos dias úteis.

segunda-feira, novembro 10, 2008

O caos, somente ele, trazia a calma dos dias de cansaço mental. Era preciso parar a roda-viva, ela queria descer. As coisas poderiam ser mais simples, menos processual.
Era como se antes do sentimento, tudo devesse ser necessariamente uma poesia bem escrita. E em meio a dor, a desordem e a rotina: ela moldava a pedra bruta dos seus sonhos mais profundos.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Escrever. O que eu preciso é escrever.
Escrever. O que me resta é escrever.
Procurar o sentido entre as sílabas e o sentimento.
Resgatar o que do mundo anda perdido.
Olhar por entre as letras.
Descobrir novas nuances do dizer.
Interpretar o que de fato se passa internamente.
Exteriorizar meu insconsciente.
Mostrar sem-vergonha o que sou.
Escrever. O que eu preciso é escrever.
Escrever. O que me resta é escrever.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Ela não vivia mais a euforia de outrora. Sentia falta. Mas, gostava da brisa suave que batia em seu rosto, serena. Gostava de olhar a vida, indo e vindo, feito onda do mar. Agora, ela estava outra vez segura. Dos olhos, nunca cansados de se cruzar, surgia um sabor doce. A vida era feita de baunilha. Do silêncio apaixonado, sempre surgia a dúvida, o medo. Até quando tudo seriam flores?

segunda-feira, setembro 22, 2008

Ela sabia que de certa forma não escolhera a vida que andava vivendo. Caiu nela de cabeça e começou a nadar sem direção. Entendia que chegara a fase tão temida: dava graças a deus pelo vale-transporte, pelo sapato de salto novo. Tinha seus medos: temia não ver mais a graça dos atos rotineiros. Temia que o checar incesante da sua caixa de e-mails fosse eterno.

Era uma menina de sonhos feitos de cartas. Gostava pegar as coisas, era menos digital que os outros. Era menos muitas outras coisas. Estava mesmo era temerosa de querer ser como os outros. Igual ela nunca seria, então viveria a angústia do quase-ser. E nessa busca mudaria a sua essência e o pior aconteceria.

Então, decidida, ao chegar em casa preparou um café (foda-se se já era quase onze horas e ela não durmiria sob efeito de tanta cafeína). Com a xícara na mão e todo o sentimento do mundo no peito, colocou seu vinil favorito dos Beatles e se pôs a cantar.
Amanhã, seria terça-feira. Para ela era apenas mais um domingo ensolarado.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Seu maior medo era não ver mais as nuances.
Gostava mesmo era de enxergar por entre as sílabas, entre as letras de cada "Eu te amo". Para ela, as coisas nem precisavam mais ter nome. Apenas cores. Aquilo que não salta aos olhos de todos. O que é tudo, não é nada. Os detalhes: adorava o brochê, a presilha de flor no cabelo. As pequenas coisas que deixam o exercício diário da vida com cara de filme.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Anda mesmo difícil ser alguma coisa. Outros já eram, outros ainda são o que a gente luta para ser. E a fila vai crescendo.

Não me diga que você não fala mais de duas línguas? Não, não falo. Mas engatinho no francês, serve?

O meu problema em aprender novos idiomas é deixar de sentir em português. Para mim é como se não existisse outra forma de dizer. Quando digo rainbow, ao invés de arco-iris, as cores somem.

O meu problema é que eu quero ser aquilo que eu ainda não sei.

quarta-feira, agosto 20, 2008

É engraçado como as coisas rapidamente mudam. Talvez o único referencial que ainda me resta seja mesmo os ponteiros do relógio. O mundo corporativo é mesmo engraçado. Os saltos, os tec tecs... e todos só querem ir pra casa ver novela das oito de pijama. A vida é mesmo um palco: com direito a comédia social e tragédia particular.
Os corações com divisórias cinzas, os prazos, a mais-valia.
Tudo isso me vem a mente antes das seis.

terça-feira, julho 29, 2008

Era sempre a mesma vontade besta, que a acometia no fim de tarde. Quando o sol se punha, um pouco dela também ia para o final do horizonte da vida. Ela datilografava seus laudos diários e na sua mente escutava a voz de Betania, cantando "clara, noite rara". Queria mais que o mundo. Queria poder carregar toda a vivacidade da natureza em seus atos rotineiros. É mesmo difícil viver, quando o que se quer é transcender o desconhecido.

segunda-feira, julho 21, 2008

Ela queria era escrever mais.

Andava sem cabeça para sentar e organizar suas idéias.
Mas as histórias continuavam.
Ora moralistas, ora levianas.
Como quem não quer nada, sempre vai criando fantasias e medos.
Depois, transcreve para o papel usando sempre os mesmo utensílio.
Sua máquina de escrever era sua cruz de exorcismo.
A partir dela seus fenômenos mais íntimos podiam ser expelidos.
Ela sabia que de certa forma tocava alguém, mesmo sem a exata compreensão.

Hoje, escreveria sobre morangos. E mofos.

terça-feira, junho 24, 2008

Era o primeiro dia de primavera daquele ano.
Lá estava ela, com seus vestidos de chita. Sempre gastara suas economias comprando roupas de brechó, porque tinham lá suas histórias. Por isso, os bróches. Quando pensava nos donos, surgiam altos filmes imaginários. A última aquisição fora uma caixinha de música. Sempre teve medo da solitária bailarina dançando ao som de valsa. Mas ela adorava afirmar sua excentricidade. Também gostava da sensação do medo que torna a gente meio apático, quase-coisa. Num é que um dia, quando ela desligou a televisão e firmou seus olhos para cair no sono profundo, a caixinha despertou sozinha. Ela, apática, permaneceu imóvel e ouviu toda a lamúria da bailarina. E depois dormiu. De manhã, pensou ser um sonho. Achou que a bailarina poderia estar cansada de ser uma escrava da vontade dos outros. Riu de seus pensamentos.
E também decidiu não dançar conforme a música.

sexta-feira, junho 20, 2008

Meus cristais não são bentos
Meu incenso não é doce
Minhas macumbas não pegam
A pomba daqui não gira
Nem o pai é santo

Mas, meu terreiro vai bem, obrigada.

quarta-feira, junho 11, 2008

Do lado de fora a vida ia depressa. De dentro do seu infinito as coisas iam devagar, quase parando. A espera já não era mais dolorida, agora ela tinha gosto de algodão doce. Sempre doce. Ela não queria pertencer a nada, somente ao momento em que estavam juntos. As conversas não tinham objetivo ou coerência. Não se buscava mais entender o outro, filosofar sobre o ato. Tudo isso estava agora fora de moda. Nada era grandioso, na verdade era minimalista. Como os pequenos prazeres que um dia viu num filme e gostou.

terça-feira, maio 27, 2008

Como viver sem sentir o tempo passar? Ela sempre se questionava.
Era enorme a sua dor ao sentir o tic-tac eterno do ponteiro do relógio. Queria tardes ensolaradas, evidenciando cores mil. Queria o roxo sempre ao lado do amarelo ovo. Queria a primavera perene dos seus sonhos íntimos. Queria flores formando um lindo caminho em seus pensamentos. Em meio a tudo isso, queria uma toalha no chão. Os sorrisos provenientes das conclusões mais toscas. Como o amor. Não queria nenhum contrato, nenhum prazo. Nada de roupas sujas para lavar. Nada de prestações, juros, neuroses capitalistas. E assim, o tempo passava sem qualquer compreensão racional viciosa. O ciclo era natural, nada de baratas no liquidificador.
Viver era mais fácil, quando ela não pensava tanto.

quinta-feira, maio 08, 2008

Ela sempre sentia uma necessidade besta de dizer. O pensamento escorregava e ia direto para boca, quase sem nenhum filtro. Isso assustava as pessoas. Por isso, ultimamente, ela andava tão calada, tentando etender o seu conteúdo íntimo. Não existia coerência no mundo. As tragédias eram cada vez maiores, as violências mais frias. As conclusões eram sempre as mesmas, sem nenhum colorido mágico. Ela queria era ser uma artista plástica de sonhos. Queria fazer potes enfeitados e dentro deles guardar suas melhores recordações.
Entre o calar e o dizer, ela escrevia. E sentada em sua cama, já enjoada das bolinhas que enfeitavam seu colchão, insistia no bate-bate da sua máquina de escrever.

segunda-feira, abril 28, 2008

Para quem não sabe:

Existe uma grande diferença entre dar as mãos e acorrentar almas.

quinta-feira, abril 24, 2008

Tenho conversado muito com as pessoas sobre o quão difícil é amadurecer. É estranho, mas a sensação de água correndo por entre os dedos é uma constante. Os acontecimentos continuam em alta velocidade, mas ao mesmo tempo, tudo parece calmo, como a velhice. Se adaptar com o final das coisas é muito difícil. Se adaptar ao fim das diversas possibilidades nem se fala. Parece que o querer ser tanto, agora se resumiu ao arrumar um bom emprego, com vale-transporte e refeição. O que não te salva de ser um grande otário, refém dos aplicativos de seu computador. É triste perceber que o colorido da vida vai desaparecendo. Os nossos sonhos se tornam velhos ranzinzas. O pessimismo vai nos abatendo de uma tal maneira que não conseguimos mais ver a luz no fim do túnel.
Queria viver eternamente nos meus filmes imaginários. Neles eu sou essa mesma praga louca. Por isso, eu os quero dentro de mim, cultivando meu lado leviano. Sou uma pessoa difícil, eu sei. Queria ser fácil, queria ser feliz morando no fundo da casa dos meus pais. Mas não sou assim. Nasci para dizer: nada está ótimo! Assim que as coisas funcionam. Vou amar e me cansar. Um dia acordarei entediada e ficarei de cara fechada. Mas num fim de tarde qualquer um sopro de vida me enche de alegria. E eu vou sorrir, um riso sincero. O meu resto de felicidade.

segunda-feira, abril 14, 2008

Existem coisas que não devem ser entendidas.
Não devem ser explicadas.
Não existe a fórmula mágica, vendida na farmácia.
Não existe um esquema em power point.
Independem da prática, da contagem regressiva.

Essas coisas devem ser vividas.
Envolve gosto e cheiro.
Produzem sinestesia, sentido, sincronicidade.

Talvez, por isso, a literatura auto-ajuda é uma grande bobagem contemporânea.

domingo, abril 13, 2008

Ela sabia que de fato tudo seria previsível.

Juntos seguiriam exatamente a receita, passo-a-passo.
Saberiam o porquê de todas as brigas e as palavras a serem ditas no momento do perdão.

Tinha certeza dos momentos de silêncio: o não-entender eterno.
Isso, ela guardaria para seus livros e discos.
Para seus filmes imaginários, com trilha sonora previamente definida.
Sua arte particular autobiográfica.

Todo esse universo tinha uma intersecção exata com ele.
Algumas coisas ficavam de fora, deveriam ser adaptadas.
Mas, o ponto de encontro fazia com que que todas as diferenças fossem esquecidas.

segunda-feira, abril 07, 2008

Do colo, surgia a melhor sensação entre todas as sensações.
Era como se o despertar ocorresse de forma lenta e gradual.
Nada de despertadores, nem lençol saindo da cama.
A vida parecia ter gosto de baunilha.

Sentir que alguém gosta de estar ao seu lado é algo mágico.
Mas, melhor ainda, é quando alguém não quer estar ao lado de outro alguém, se não, você.

Eu, mim: amar é tão egoísta.

sexta-feira, março 28, 2008

O dia era só uma manhã nebulosa. Ela sentia como se todo o sofrimento feminino de décadas estivesse estacionado no seu peito. Sofria toda a dor de gerações de mulheres. Desde aquelas arrastadas pelos cabelos até a neurose contemporânea.
...
Ele a olhava durmir, ela sabia. Ele, de fato, nunca entenderia seu conteúdo interno. Todo aperto de uma vida interior, chamado de infinito particular. Ela queria compartilhar seus pensamentos, mas não encontrava o modo exato. Assim, respirava fundo, fechava os olhos em busca de paz exterior.
...
Ela queria era esquecer quem era e o que fazia. Queria cultivar suas flores, ter um jardim secreto chamado vida.

quarta-feira, março 19, 2008

Agora ela não queria viver nada raso. Queria deixar as mediocridades para depois, quando tivesse uns sessenta anos. Por enquanto, nada de missas, orações e velórios.
Durante a noite, abria as janelas da sua alma, enquanto ele fumava seu cigarro noturno. Nada de sopas ralas ou manias de vegetariano. Ela queria que a vida fosse doce como brigadeiro de panela. E era.

quarta-feira, março 12, 2008

My tears dry on their own.

Eu queria ser a Amy, por um dia.

terça-feira, março 11, 2008

Deitados na grama, ela olhava bem no fundo dos seus olhos e desviava. Se sentia de certa forma invadida pelo sentimento que ele lhe causava. Era a sua queda do muro de Berlim, antes devastada por muitas guerras. Mesmo com medo de nunca saber o que realmente se passa na idéia do outro, ela aceitou e foi feliz naquele momento. Sem se importar com as meias sujas e as toalhas molhadas em cima da cama. Decidiu se guiar de acordo com as necessidades mais momentâneas e as vontades mais toscas. E assim: foi viver seus sonhos de nhá benta.

segunda-feira, março 03, 2008

Por mais que ela tentasse, era inevitável o desejo de não pertencer a esse mundo, esse tempo. Tudo ao seu redor era agora sem graça. A vitalidade estava perdida. Predominava um ar blasé, como quem não quer nada. E ela ria da graça sem graça disso.
O que queria mesmo era congelar momentos. Vivê-los até enjoar, de novo, mais uma vez. Porque as borboletas teimavam em voar no seu estômago, quando pensava em tudo aquilo. Nada está completamente perdido, sempre. Mas de vez em quando, as coisas demoram a acontecer.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Com ele, ela não pretendia ir muito longe.
Nem fazia planos a longo prazo: casamento, filhos, parcelas mensais. O único contrato deles era o exercício diário das pequenas coisas. A cumplicidade de olhares e gestos. O cheiro de roupa limpa. As conversas no café-da-manhã.
E só.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Enquanto tentava durmir ao lado do leito, quase que psicografando numa cadeira, um homem de 1918 olhava para o teto. Ela sentia que pouca coisa os separarava, pois o medo era o mesmo. O não-entender era o mesmo. Assim compreendia que a decadência humana não se resume a velhice e sim a indiferença.

Ela lembrou de 21 gramas.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Para quem deseja entender o quão complexo é o amor, eu indico: antes do amanhecer.
É o único filme que consegue colocar para fora todo o sentimento do mundo.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

A ECA é o meu retiro espiritual.
Depois de milhões de anos, eu resolvi andar sem rumo por lá.
Tinha que pagar umas contas, ver a reforma dos meus filhos e também, sei lá, sentir aquele ar que é o mesmo da década de 70.
Vai ver que é por isso que um dia alguém a chamou de "maravilhosa".
Que os "bixos" possam sentir todo o epifanismo de ser um ecano de coração.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

É engraçado como tudo nessa vida é ironicamente triste.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

É triste o dia em que descobrimos que o fascinante do gosto da jabuticaba está no ato de panhá-la do pé. Quando se compra em caixas no supermercado, ela tem o gosto amargo da cidade. Também difícil, é entender que o sofrimento nos faz compreender melhor as coisas, nos dá a lucidez necessária para enfrentar o dia-a-dia. Porque só quem sofre compõe de verdade e enxerga as entrelinhas dos filmes e poemas. Só quem se sente triste por algo consegue sentir a tristeza no silêncio do outro e aprende a conversar com o olhar.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Quando o teu amor bater em minha porta, eu abrirei as janelas do meu olhar. O pouco que me encara do teu querer é uma dádiva profunda. Eu quero te ter, mas antes, pretendo que você me tenha, como um prêmio. É doce pensar no amor, não senti-lo. Sentir dói e o pensar abre possibilidades de viver.